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Fatos Políticos

Em caso de estupro, a vítima será a culpada. Sempre

Garota de 14 anos é estuprada em Manaus e os comentários online colocam a culpa na garota, como se ela estivesse "procurando" pelo crime

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Foto Ilustrativa (Foto:Paraiba.com)

Comentarista de internet é difícil de lidar. Matheus Pichonelli escreveu muito bem a respeito em Não penso, logo relincho. Em casos de estupro, quando a violência acontece com uma “mulher direita” ou que a gente conheça (amiga, namorada, irmã), o discurso correto é culpar o estuprador, inclusive incitando uma violência barbárica. “Tem que castrar”, “prisão perpétua”, “pena de morte” e, até mesmo, estuprar o criminoso, para “devolver na mesma moeda”.

No entanto, quando o estupro ocorre contra uma qualquer, isto é, uma mulher que, sim, poderia ser nossa irmã, mas não é, a culpa será sempre dela. Escrevi inúmeras vezes sobre isso aqui neste espaço e também no meu blog pessoal, só que parece que as pessoas não querem enxergar que elas têm, sim, esse discurso – e não têm a menor vergonha de compartilhar em comentários em blogs, no Twitter ou no Facebook.

O caso de hoje envolve uma garota de 14 anos que estava andando na rua às 23h em Manaus. Um motorista parou, obrigou-a a entrar no carro, e a levou para uma casa abandonada. Lá, estuprou-a. A vítima foi encontrada pela polícia. A reportagem não diz quais as condições físicas da adolescente naquele momento, mas obviamente não foi um encontro sexual consensual, porque se não a polícia não deveria tê-la “encontrado”. Isso não é óbvio? Quando você transa, o normal e aceitável é que depois do sexo ou você se vista e vá embora, ou durma ao lado do parceiro. É assim que o mundo funciona, caso alguém não tenha entendido. Você não é “descoberto” pela polícia numa casa abandonada.

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O tribunal da internet, no entanto, não foi capaz de fazer esse raciocínio lógico, tão desesperado por culpar a mulher, esta Eva que começou a nos destruir desde aquela tal maçã.

Recolhi alguns dos comentários na notícia no Facebook do D24, jornal do Amazonas que deu a reportagem.

Homem:

23 hs na rua? Kkkk… Coisa boa nao tao fazendo! E cadê os pais??? Ta merecendo uma cadeia

“Está merecendo uma cadeia.” A vítima. Entenderam? A vítima merece cadeia por estar na rua às 23h.

Homem:

O que uma menina dessa faz nas ruas a essa hora? Tava procurando,encontrou.

Claro. Todas nós, quando saímos, estamos à procura de sermos estupradas. É o sonho de toda mulher.

Mulher:

o que essa individuo de 14anos fazia na rua uma hora dessa?!Do jeito que ta perigoso ficar até dentro de casa ai é pedir neh!!!

Novamente, ser estuprada é o nosso sonho.

Mulher:

E o que uma menina faz na rua esse horario , e kde a mae dla , ? E 14 anos naum é nem uma criança ja sabe muito bem o que é bom e o que é ruim . A vá ate parece msm . . .

Por que ninguém pergunta pelo pai? E, sim, a garota pode até saber o que é bom e o que é ruim. Eu tenho 20 anos a mais do que ela e sei muuuuuuuuuuito bem o que é bom e o que é ruim, mas isso não quer dizer que eu vá escolher pelo ruim, pelo péssimo, pelo desastroso.

Mulher:

De menor na rua esse horário?
No meu tempo muito diferente, dando trabalho para os pais e pra polícia!!!
Se tivesse em casa dormindo nada disso teria acontecido!!

O “em casa” pode ser substituído por “escola”, por “igreja”, e por aí vai, ignorando o fato de que 80% dos estupradores são conhecidos da vítima.

Homem:

“””””””Estupro””””””””” pq se hj em dia se um cara der um sopro numa menina é considerado estupro.

(me recuso a comentar.)

Homem:

Imagino a roupa que ela estaria usando a essa hora na rua… mas nao justifica o estupro, mas as meninas de hoje procuram por isso, andam quase nuas.

Faltava o da roupa, né? Completou sua cartela de bingo aí?

Há comentários igualmente ou mais toscos ainda, citando órgãos sexuais e coisas do tipo. Vou poupá-los disso. Eu apenas quero mostrar como é necessário, sim, bater na mesma tecla: a culpa não é da vítima. Porque o “pensamento” corrente é o de que a vítima pediu por aquilo, se colocou em risco, não tomou os cuidados suficientes. Isso gera uma bola de neve, porque esta vítima vai mesmo se sentir culpada, suja. Ela não vai procurar a polícia – e os crimes de estupro, que já têm uma taxa pequena de condenação, continuarão impunes. Dificilmente ela conseguirá compartilhar com amigos e família o que lhe aconteceu, já que tem consciência do julgamento que virá a seguir.

A autoestima possivelmente irá para as cucuias, e esta mulher se sentirá sempre como se algo estivesse faltando, como se ela não fosse completa e, caso encontre um parceiro, irá aceitar o que vier. Se a relação for abusiva, incluindo violência física, ela ainda assim se sentirá sortuda por ter achado alguém que ficou com ela apesar de.

É o ciclo da misoginia e da violência contra mulheres. Precisamos quebrá-lo. É de pessoas que estamos falando, de gente, de seres que sentem, se machucam, se magoam, se desesperam. É epidêmico. É uma questão de humanidade.